A Área de Conservação e Restauro e as exposições

Na realização de uma exposição é necessária a participação de todos os sectores do Museu.

As exposições são realizadas com objectos representativos dos temas a tratar. Esses objectos são, na sua maioria, pertencentes ao MNE embora por vezes se recorra a empréstimos exteriores. É necessário garantir previamente que o estado de conservação dos objectos permite a sua exposição.

Para alem dos objectos há também a utilização de imagem em movimento (filmes projectados em tela ou em monitor), imagem parada (fotografias ampliadas) som, textos (legendas, textos de parede ou folhas volantes) para ilustrar o tema da exposição.

Os sistemas expositivos são muito variados. Os objectos podem estar:

·    suspensos;

·    sobre um suporte (normalmente em metal, acrílico ou madeira e construídos especificamente para cada objecto) ou

·    assentes directamente nos expositores.

Todas estas possibilidades podem ainda ocorrer dentro ou fora de vitrinas fechadas.

Em todas as exposições é feito um relatório de montagem que inclui o estado de conservação dos objectos, os sistemas expositivos e de apoio bem como a sua distribuição na sala e recomendações de trabalho. É assegurada uma monitorização regular para detectar eventuais anomalias ou problemas causados pelas soluções utilizadas na exposição. Inicialmente a monitorização ocorre uma vez por semana sendo esse período progressivamente espaçado, caso não sejam detectados problemas. Em situações regulares a monitorização ocorre mensalmente sendo elaborado um relatório. As situações irregulares são também registadas em relatório.

As segundas-feiras e terças-feiras de manhã são utilizadas para a realização de limpezas mais detalhadas e manutenção dos equipamentos, uma vez que nessas alturas as exposições não estão abertas ao público.


Pormenor da degradação (mancha branca sobre o estrado verde) causada pelo tombo do objecto provocado por um visitante


Vestígios da actividade de insectos xilófagos num objecto da exposição “Sogobò” detectados durante a monitorização


Catarina Teixeira (esquerda) e Mariana Duarte (direita) durante a montagem da exposição “Com os índios Wauja” colocando uma máscara no suporte


Mariana Duarte (esquerda) e Catarina Teixeira (direita) durante a montagem da exposição “Com os índios Wauja” preparando um objecto para suspender

Fixação de policromias na Colecção Modelos de Thomaz de Mello (Tom) do Museu de Arte Popular

No seguimento da entrada no Museu Nacional de Etnologia do acervo do Museu de Arte Popular iniciaram-se tratamentos de conservação e restauro com carácter de urgência em alguns dos objectos das suas colecções, de modo a possibilitar o manuseamento e a colocação em espaço de reserva. Uma das colecções em que surgiu essa necessidade foi a Colecção Modelos de Thomaz de Mello (Tom), representando diversos modelos de bonecos envergando fatos tradicionais portugueses. Os modelos desta colecção foram executados, a partir de 1935, pelo artista Tom (concepção da estrutura e modelação das cabeças) e por Dalila Braga (traje) sob a orientação de Francisco Laje (que seria o primeiro director do Museu de Arte Popular), e, foram incorporados em 1958 nessa instituição museológica.

Devido a problemas de destacamento da policromia nas áreas dos membros (inferiores e superiores) e das cabeças foram intervencionados 38 dos 82 modelos existentes. Procedeu-se à fixação de todas as policromias com problemas de adesão ao suporte através da introdução de adesivos, activados por calor e pressão, compatíveis com os materiais constituintes originais dos objectos. João André, Luís Soares (responsável pelos tratamentos de conservação) e Manuel Araújo fabricaram suportes individuais para cada um dos modelos de modo a possibilitar uma colocação correcta em reserva.

Pormenor da cabeça do modelo de lavradeira MNE.9510 antes da intervenção

Conservação e Restauro: estágio 2008

Ao abrigo do protocolo de colaboração para realização de estágios celebrado entre o Instituto Politécnico de Tomar e o Instituto dos Museus e da Conservação /Museu Nacional de Etnologia terminou, com apresentação pública a 21 de Julho de 2008, o estágio de Cláudia Duarte.

A formação obtida durante este estágio foi muito abrangente, focando vários aspectos relacionados com a gestão do acervo do ponto de vista da Área de Conservação e Restauro, nomeadamente normas de segurança e regras de trabalho no MNE, procedimentos de incorporação de novos objectos, correcta instalação de objectos em reserva (incluindo a criação de suportes adequados), controlo integrado de infestações e diversas outras acções relacionadas com procedimentos de conservação preventiva e tratamentos de conservação.

Para além de assegurar algumas tarefas de rotina relacionadas com o plano de conservação preventiva do MNE este estágio teve dois objectivos principais: o acompanhamento do processo de transferência do acervo do Museu de Arte Popular e o tratamento de conservação de um molim proveniente do mesmo Museu.

No primeiro objectivo Cláudia Duarte agiu como courier, acompanhando os diversos transportes e acções de desinfestação de todo o acervo, assegurando os aspectos práticos necessários para garantir transportes seguros. Já no MNE, Cláudia Duarte, em conjunto com outros colaboradores, procedeu a instalação em reserva de parte do acervo.

Para o segundo objectivo foi seleccionado um objecto em muito mau estado de conservação no qual foi realizado um tratamento de alguma complexidade precedido da elaboração de diagnóstico e de pesquisa sobre conservação de peles etnográficas. A par deste tratamento foram realizados ainda outros, mais simples e de execução mais rápida.

Cláudia Duarte atingiu, e em alguns pontos chegou a ultrapassar, os objectivos propostos para este estágio, estando este entre os melhores estágios curriculares realizados no MNE.

Como conclusão salienta-se que este estágio permitiu uma formação sólida em conservação e restauro apoiada também nos conhecimentos teóricos adquiridos durante o curso que foram sendo complementados e consolidados durante os aspectos práticos das tarefas desenvolvidas.

Cláudia Duarte supervisionando a chegada ao MNE de objectos da colecção de mobiliário provenientes do Museu de Arte Popular

Cláudia Duarte durante uma fase do tratamento de conservação de um molim proveniente do Museu de Arte Popular

Trabalhos de Verão 2008

A sexta acção de formação dos Trabalhos de Verão decorreu de 1 de Agosto a 4 de Setembro de 2004. Foram candidatas aceites para este projecto Cátia Souto e Rita Vaza, do Mestrado de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, e Lorenza Bagnarelli, do Mestrado de Conservação e Restauro da Università degli studi Carlo Bo (Urbino, Itália).

A formação focou aspectos relacionados com as normas de segurança e regras de trabalho no MNE. Foram obtidas noções de manuseamento de objectos, realização de suportes e instalação em reserva que permitiram o acondicionamento de parte da colecção de têxteis provenientes do Museu de Arte Popular.

Após adquirirem noções básicas de limpeza mecânica acompanhada de aspiração as voluntárias participaram na campanha sistemática de limpeza e tratamentos das Galerias da Vida Rural.

Para a inscrição de números de inventário foram dadas noções sobre o uso de solventes, soluções e testes para averiguar a sua adequação a cada caso. Foi feita, após treino em objectos de teste, a remoção de números de depósito e a inscrição de números de inventário na colecção de instrumentos musicais populares portugueses.

A realização de tratamentos em objectos de cerâmica provenientes do Museu de Arte Popular foi precedida por uma aprendizagem sobre consolidação e colagem de objectos cerâmicos e as participantes dos Trabalhos de Verão 2008 realizaram tratamentos de colagem, com o objectivo de recuperação da forma original de alguns objectos que se encontravam muito fracturados.

O trabalho realizado foi sendo documentado e, para além do preenchimento, em base de dados, das acções de conservação relativas aos objectos intervencionados durante os Trabalhos de Verão, as voluntárias realizaram ainda um relatório final sobre todas as actividades desenvolvidas durante estas semanas.

Como conclusão salienta-se que este projecto permitiu uma formação em princípios básicos de conservação e restauro a três alunas dessa área que, embora ainda sem total autonomia, se revelaram capazes de realizar as funções que lhes foram atribuídas. O MNE beneficiou também com o trabalho realizado por estas alunas durante as cinco semanas em que decorreu esta acção.

Rita Vaza, Cátia Souto e Lorenza Bagnarelli
realizando tratamentos de conservação em objectos
de cerâmica provenientes do Museu de Arte Popular

A Área de Conservação e Restauro no MNE

A preocupação com a conservação das colecções deu-se assim que estas começaram a entrar no Museu, com Fernando Galhano no início da década de 1960, seguindo por vezes procedimentos com base no saber popular, e rapidamente evoluindo para uma atitude mais baseada em metodologias e princípios museológicos, como se tornou evidente a partir da década de 1970 com o trabalho de Manuela Costa. Mais recentemente seguiu-se um período, no âmbito de campanhas específicas, em que o Museu passou a recorrer à contratação temporária de profissionais com distintas formações. A metodologia de trabalho era então discutida caso a caso e a coerência entre os vários tratamentos mais difícil de equacionar.

Em 2000, após a realização dos trabalhos de ampliação do edifício do Museu que incluiu a construção de um novo laboratório, a Área de Conservação e Restauro surge como um sector fundamental, permitindo uma actuação mais estruturada e mantendo a sua tradição de investigação.

Desde então os diversos eixos de actuação têm sido definidos e reavaliados sempre que necessário existindo regulamentos que enquadram acções relacionadas com a conservação preventiva, os tratamentos, as exposições, os empréstimos ou a formação.

Luís Soares durante o tratamento de conservação de um dos objectos da Colecção Modelos de Thomaz de Mello (Tom).

Pormenor de um dos objectos da Colecção Modelos de Thomaz de Mello (Tom) durante o tratamento de conservação.